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Dois pesos, duas medidas. A humanidade não tem jeito

Já se passou um mês de guerra na Ucrânia e o mundo, principalmente o Ocidente, tem encenado um show de solidariedade hipócrita aos ucranianos. Refiro-me ao fato, não de toda essa comoção ser falsa, mas ao fato de que em nenhum outro momento nos voltamos, aqui me incluo, para a matança no Oriente Médio, muito menos à África, continente que, em grande parte, é assolado pela violência de guerras. O Iêmen, por exemplo, está em guerra há 8 anos com 111 mil mortos, conforme aponta o Global Conflict Tracker, entidade que rastreia os tensões e conflitos belicosos pelo mundo. Alguém percebeu alguma comoção mundial pelos iemenitas? Eles são apenas um exemplo de povos que sofrem em guerras, mas são esquecidos por nós.

A Rússia invadiu a Síria na década passada, assassinando milhares de civis inocentes objetivando manter o ditador Bashar al-Assad que desde o ano 2000 se mantem no poder ditatorialmente assim como Vladimir Putin, outro ditador que habita o Kremlin há quase 20 anos. A única atenção dada a esta guerra que ainda continua, por exemplo, aconteceu pelo fato de os EUA estarem envolvidos no conflito, porém, não observamos, sequer, algo parecido com a atenção midiática atual à Ucrânia.  Só para constar, na Síria, segundo as Nações Unidas, são mais de 400 mil mortos, mais de 5,6 milhões de pessoas fugiram do país e mais de 6 milhões estão deslocados internamente.

Algum líder mundial se preocupou ou se importou em sancionar a Rússia e o ditador presidente da Síria neste tempo? Alguém conseguiu ver tal cobertura midiática como a que temos hoje na Ucrânia? Canais de televisão esqueceram do resto do mundo e tem seu foco voltado para o país europeu durante as 24 horas dia. No Brasil, a mídia esqueceu da tragédia em Petrópolis, das mancadas políticas, da violência que mata a nossa juventude, da nossa guerra urbana contra o tráfico e a violência.

Aqui podemos evocar o pai da teoria da geoestratégia e o geógrafo inglês Halford J. Mackinder, famoso autor de geopolítica e da teoria do Heartland, a qual diz  “Quem domina o leste da Europa, domina Heartland. Quem domina Heartland, reina na ‘Ilha do Mundo’. Quem domina a ‘Ilha do Mundo’ governa o mundo inteiro”. Heartland significa, literalmente, Coração da Terra. Mackinder situou o Heartland na zona territorial que abrange os continentes europeu e asiático, e que recebe a denominação de Eurásia ou Ilha Mundial

Seria a teoria de Mackinder a resposta para a incrível atenção midiática à Ucrânia? Creio que não, pois a maioria nem sabe da existência dela. A resposta mais plausível é que a Ucrânia fica no coração da Europa, como afirmava o geógrafo, tem população relativamente rica, quando comparada aos países desenvolvidos, tem um povo de cabelos e pele branca e olhos azuis, basicamente e são cristãos, ou seja, são semelhantes a nós. Ou como disse um repórter da NBC, “Para ser franco, não são refugiados da Síria, são refugiados da Ucrânia. Eles são cristãos, eles são brancos.

Os africanos e os médio-orientais não possuem as características acima. Eles são árabes, muçulmanos e possuem a tez mais escura. Jamais houve um movimento mundial de voluntários prontos para ir à Síria lutar pelos inocentes daquele país ou de alugar casas pelo Airbnb para ajudar os ucranianos financeiramente. Zelensky, por meio de seu ministro, declarou que mais de 20 mil pessoas, de pelo menos 52 países, ofereceram-se para lutar pelo país europeu. Inclusive brasileiros, conforme mostrou a mídia, estão na Ucrânia defendendo os “nossos semelhantes”. Há tantas outras guerras esquecidas pela mídia e por todos nós também que apenas nos preocupamos com aquilo que nos convém. Jamais pensamos em ajudar aqueles que não são nossos semelhantes, por razões óbvias.

No programa Nosso Mundo exibido pela CNN no último dia 12, a jornalista Luciana Barreto perguntou, aos 50:20, fim do programa – contextualizando o recebimento acalorado dos ucranianos pela Europa e pelo mundo e que os mesmos países europeus e ocidentais não recebem outros refugiados de braços abertos, resumidamente – ao filósofo Luiz Felipe Pondé o seguinte: Que tipo de humanidade é essa? Quem somos nós? Para isso, Pondé responde “É a humanidade que tem pra hoje, é essa aí. […] Acho que isso não vai mudar, sinto muito não te levar a um ambiente de mais esperança. […] Os europeus veem nestes refugiados, gente igual a eles […] E quando se fala de sírios e africanos, não. Não adianta, a humanidade é racista mesmo. […] Eu não acho que isso vai mudar muito. Talvez neste momento se faça alguma ação com o objetivo de marketing que faça parecer que essa situação mudou. E quando você me pergunta que humanidade é essa? Essa é a humanidade que sempre existiu, a gente que nos últimos tempos tem se engando achando que a humanidade não é assim. Ela sempre foi assim, não há nenhum indício que deixará de ser. Ela melhora em alguns lugares, você consegue avançar em determinadas coisas, mas pode andar quatro casas para trás.”

Por Cássio FT Rogalski

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Cassio Felipe Tartas Rogalski

Sou formado em Letras e Jornalismo com especialização em Relações Internacionais e Diplomacia. Professor, jornalista, autor, colunista e analista de Relações Internacionais. Sou apaixonado por línguas, filosofia, escrita, livros em geral, música, viagens e café.

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