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Geral

Dentre 30 países, os brasileiros são os mais desconfiados

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Não faltam relatos de estrangeiros que sofreram golpes no Brasil simplesmente porque acreditaram em alguma informação falsa e confiaram na pessoa que a repassou. Na maioria dos casos, a reação dos brasileiros é criticar a ingenuidade e a falta de discernimento da pessoa engambelada. Mas, no plano mais amplo da convivência em sociedade, será que a insuspeição é um erro — ou errados estão aqueles que sempre desconfiam de tudo e de todos? A questão se impõe aqui, onde confiança é artigo de luxo. Em pesquisa inédita do Instituto Ipsos, que apresentou a pergunta “Você confia no próximo?” a 22 500 pessoas em trinta países, o Brasil aparece em último lugar — só 11% responderam “sim”, muito abaixo da média global, de 30%. Não há dúvida de que, nestas praias, o mais prudente é manter o pé atrás até prova em contrário, mas essa atitude tem seu preço. “Quem desconfia sempre se fecha para os outros. Não se trata de confiar cegamente, mas compensa dar uma chance às pessoas”, pondera a psicóloga Lidia Aratangy.

São vários os motivos citados para a desconfiança atávica dos brasileiros e parte deles remonta à própria formação do Brasil colônia, na qual a ausência de um projeto comum entre os nativos e os portugueses desembocou na construção de uma sociedade sem harmonia, onde prevalecia o conflito. “A confiança se estabelece quando há uma relação comunitária e pessoas com objetivos semelhantes, algo impossível em uma época em que um lado temia ser escravizado, explorado pelo outro”, avalia o cientista político José Álvaro Moisés. A indiferença original da sociedade ao interesse coletivo resultou na criação de instituições vacilantes, sujeitas a manobras e interesses, e abriu espaço para a impunidade. Não por acaso, a pesquisa do Ipsos mostra que a profissão com menor prestígio no país é a de político — 63% dos entrevistados a consideram “não confiável”.

A desconfiança sempre patente se acirra ainda mais em consequência da polarização, que ruge com força em ano eleitoral. Nesse contexto, desconhecidos são inimigos em potencial e as barreiras emocionais se tornam ainda mais impenetráveis. “Existe uma crise global de ceticismo, mas a situação brasileira é especialmente preocupante”, afirma a cientista política Nara Pavão, da Universidade Federal de Pernambuco. “A ideia de ‘nós’ contra ‘eles’ separa as pessoas.” O bancário carioca Luiz Roberto Abreu, 56 anos, é um cético assumido, depois de ser alvo de seguidas manobras que o prejudicaram no trabalho e de se decepcionar com o poder público em sucessivos momentos. “Na primeira oportunidade, as pessoas agem para te lesar. E os políticos, que deveriam zelar pela população, só atuam em benefício próprio. Não tem para onde correr”, diz.

O célebre jeitinho, afirmam os especialistas, contribui para o alto índice de desconfiança. Sua origem está no “homem cordial” definido em Raízes do Brasil (1936), de Sérgio Buarque de Holanda. Segundo o historiador, trata-se de um artifício psicológico incrustado na formação dos brasileiros que faz com que ponham as relações afetivas acima das impessoais. “A tendência é favorecer aquele com quem se tem afinidade. Não existe uma cultura que ponha o correto acima de tudo”, diz Bernardo Conde, antropólogo da PUC-Rio. Com frequência, como todo mundo sabe, esse jeito torto de obter as coisas descamba para o suborno deslavado, inchando ainda mais a maré de desconfiança. Há, felizmente, quem nade contra ela, se dobrando com convicção às regras. A fisioterapeuta carioca Larissa Teixeira, 26 anos, fez a prova de direção quatro vezes e não conseguiu a habilitação. Preferiu desistir a pagar um fiscal e comprar a carteira, como muitos fazem. “Senti que fui reprovada de propósito, para ganharem dinheiro. Mas acho que burlar as normas sempre prejudica alguém”, desabafa.

A pesquisa instala a China no primeiro lugar em confiança — lá, quase 60% da população põe a mão no fogo pelo próximo. Para o CEO do Ipsos, Marcos Calliari, isso se deve ao Estado forte e à ênfase na coletividade, ainda que os dois fatores se apoiem em um regime ditatorial. “A estabilidade econômica e política se reflete diretamente na forma como as pessoas constroem suas relações”, diz Calliari, observando que as democráticas Holanda, Suécia, Austrália, Irlanda e Suíça também estão entre os dez países com maior índice de confiança.

Entre os entrevistados pelo Ipsos, as mulheres e os jovens se mostraram mais desconfiados do que os homens adultos. “Os altos índices de violência de gênero e a cultura patriarcal explicam esse comportamento”, afirma Calliari. No caso dos jovens, a tendência está atrelada ao intenso fluxo de informação a que têm acesso, onde não faltam provas de cambalacho. O comerciante baiano Iury Nunes, 20 anos, sentiu na pele o golpe aplicado por sua melhor amiga, que lhe arrancou 700 reais através de mentiras. Ele ameaçou denunciá-la à polícia e o dinheiro foi devolvido, mas a mágoa permaneceu. “Levei tempo para entender que estava sendo roubado. Hoje não empresto 1 centavo para ninguém e não consigo confiar nem em amigos e familiares”, admite. Nem sempre, porém, desconfiar é o pior caminho. Há situações que justificam plenamente manter um pé atrás e outras em que duvidar abre horizontes inesperados. O cientista Albert Einstein (1879-1955), do alto de sua sabedoria, pontificava: “O primeiro dever da inteligência é desconfiar dela mesma” (veja outras manifestações sobre o tema abaixo). Mas quem se fecha à possibilidade de acreditar nas outras pessoas pode acabar mais sozinho do que gostaria. “Sentir-se acolhido e confiar formam uma via de mão dupla”, observa Lídia Aratangy. No país dos desconfiados, um voto de confiança pode fazer toda a diferença.

Por Blog da Cidadania

Cassio Felipe

Professor, Escritor e Jornalista Especialista em Relações Internacionais e Diplomacia

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