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Mundo

Venezuela: De 4º país mais rico do mundo a 94,5% da população vivendo na pobreza

Reportagem publicada pelo jornal espanhol El País, no último dia 29, anuncia que “94,5% dos venezuelanos vivem na pobreza”. Outros pontos assustadores também publicados semana passada na pesquisa chamada Encovi Universidade Católica Andrés Bello, de Caracas, são os seguintes… Antes, é importante considerar que tais índices são os únicos considerados fidedignos, já que o governo venezuelano não faz publicações ou atualizações de estatísticas há anos.

– 76,6% da população está abaixo da linha da pobreza;

– 8,1 milhões de venezuelanos estão desempregados contra 7,6 milhões que trabalham, porém gostariam de trabalhar mais horas, pois a jornada de trabalho foi reduzida;

– 3,6 milhões de pessoas desistiram de procurar emprego e 1,5 milhão de mulheres com filhos não podem trabalhar por conta das atividades maternas;

– De 2014 para 2021, o emprego formal se reduziu em 21,8%; só no último ano foram eliminadas 1,3 milhão de vagas;

– A entrada de divisas caiu de 90 bilhões de dólares em 2012 para 5 bilhões em 2020;

– No caso das famílias miseráveis, a renda chega a 36 dólares mensais;

– Estima-se que 340 mil crianças deixaram de nascer no país em 5 anos;

– A população diminuiu 1,1% nos últimos 5 anos passando a 28,7 milhões de pessoas;

– Mais de 4 milhões de venezuelanos emigraram nos últimos 5 anos.

Um homem com o rosto pintado com as cores nacionais da Venezuela comparece ao concerto 8220Venezuela Aid Live8221 organizado para arrecadar dinheiro para o esforço de ajuda venezuelano na Ponte Internacional Tienditas em Cucuta Colômbia em 22 de fevereiro de 2019 Foto Luis RobayoAFP

Para entender melhor como o país chegou a tal ponto, conversamos com a economista Venezuelana Adriana Rojas que vive em Caracas, a capital. Ela nos explicou um pouco de como o país chegou à gravíssima crise econômica e alimentar que está escancarada para quem quiser ver a ponto de fazer com que milhões de habitantes partissem em busca de sobrevivência em outros países.

PR: Como explicar a um cidadão comum que a Venezuela foi considerada o quarto país mais rico do mundo e agora se encontra em uma situação tão difícil?

Adriana: Muitos são os fatores que levaram a Venezuela a atingir a situação atual. O país sempre foi considerado rico pelas suas reservas de petróleo, mas esta, em vez de positiva, acabou por ser uma âncora, pois o Governo (tanto da Quarta República como da Quinta República) só se concentrou no petróleo como principal fonte de receitas do país, sem dar a devida atenção a outras áreas de desenvolvimento. Também é importante notar que a maioria dessas reservas são de petróleo pesado, de difícil extração e muito caro.

Quando, em 2008, os preços do petróleo ultrapassaram US$ 100 por barril, a receita e os gastos públicos do país subiram na mesma proporção. Somado a isso, desde 2003 o Governo restringia o acesso ao dólar para a população e havia uma política de preços administrados, tudo isso originou uma bolha onde o venezuelano se sentia financeiramente confortável, sua renda era alta, os preços de bens e serviços eram baixos e por uma agência do Estado, chamada CADIVI, ele poderia comprar uma quantidade limitada de dólares a um preço barato, o que lhe permitia fazer economias em uma moeda diferente do Bolívar. Todas essas regulamentações geraram mecanismos de corrupção em todos os níveis, alta inflação e perdas nas Reservas Internacionais, que só foram valorizadas com a queda do preço do petróleo.

Naquela época, a infraestrutura industrial estava deteriorada, de forma que a produção nacional estava em níveis muito baixos e, portanto, as exportações do país diminuíram. Se você adicionar a isso a desconfiança dos investidores estrangeiros nas políticas governamentais e no sistema jurídico venezuelano, você terá como resultado um país empobrecido e deteriorado, onde seus cidadãos não têm renda suficiente para cobrir suas necessidades básicas.

PR: Hugo Chávez manteve a economia e as exportações do país baseadas no petróleo, sem focar em outros setores. Além disso, nacionalizou setores estratégicos e alienou investidores estrangeiros. Não foi essa uma receita preparada para a falência do país? Em caso afirmativo, por que prosseguir com este plano?

Adriana: De fato, foi uma receita para o desastre, e o resultado é a situação atual na Venezuela. Hugo Chávez estava convencido de seu projeto de socialismo do século XXI e do fato de que a Venezuela deveria ser soberana e não depender de nenhum outro país, por isso começa com nacionalizações e rompimento com aliados estratégicos. Ao constatar que a produção das diferentes indústrias começa a declinar por não terem o nível de gestão adequado e os investimentos necessários, acusa a oposição de sabotar seu Plano Estratégico. E no momento em que a situação no país piorou, ele adoeceu e morreu, pelo que resta a dúvida se realmente acreditou naquela sabotagem ou apenas a usou como desculpa para não reconhecer o seu erro.

PR: Em 2014, quando o preço do barril começou a despencar, qual deveria ter sido a estratégia econômica para suavizar a tragédia, na sua opinião?

Adriana: Em 2014 já era tarde para agir, o país já estava em declínio, à beira da hiperinflação e com níveis de produção quase nulos. O governo deveria ter moderado os gastos públicos, aumentado as reservas internacionais, investido em novos empreendimentos e infraestrutura, muito antes. Talvez eles pudessem ter relaxado seus controles para tentar recuperar o investimento que havia sido perdido.

PR: Quanto à PDVSA, qual seria o impacto econômico se Maduro perdesse a empresa para terceiros por ameaças de credores?

Adriana: Atualmente, a PDVSA não é mais a forte petroleira que era no passado, os níveis de produção estão bem abaixo de um milhão de barris por dia. A renda que gera não tem a importância no Produto Interno Bruto que tinha antes. Mas, da mesma forma, seria algo negativo para o país, porque são ativos que representam possibilidades para o futuro, se for retomada uma boa administração que lhe permita voltar a níveis ótimos de produção. Por outro lado, nos últimos meses o governo vem vendendo ações de algumas de suas subsidiárias para obter fluxo de caixa, visto que a receita do estado é insuficiente, o que é alarmante.

PR: A moeda venezuelana continua altamente desvalorizada devido à política cambial do governo. O que pode ser feito para controlar a inflação?

Adriana: A inflação em um país está diretamente relacionada à oferta e à demanda, então a oferta tem que melhorar, isso significa reativar a atividade produtiva, permitir investimentos em infraestrutura, retomar modelos de produção agrícola, mas para isso é preciso dar segurança aos investidores, ter um marco legal que é aplicado e permite que o preço dos produtos gere lucro. Mas também implica em políticas fiscais e monetárias eficientes. A questão cambial ainda está em uma área cinzenta, hoje o dólar circula livremente, de fato os estudos mais recentes estimam que o dinheiro circulante em dólares é superior a 70%, o bolívar está desaparecendo, ele só é usado para pagamentos muito pontuais, e os estados fronteiriços são movimentados com moedas de países vizinhos (pesos colombianos e o real brasileiro), mas há restrições para seu uso no sistema bancário nacional ou internacional.

PR: Você acha que a adoção de um sistema capitalista pode melhorar as condições de vida do país e fazê-lo crescer economicamente?

Adriana: A Venezuela precisa melhorar sua condição econômica desenvolvendo seu aparato produtivo (agrícola e industrial) e gerando confiança nos investidores de que seus direitos serão respeitados, isso nada tem a ver com se o sistema é capitalista, socialista ou “socialista do século XXI ”, mas está diretamente relacionado com o comportamento das pessoas que estão no poder e, em suma, quem está atualmente no comando do país não dá nenhuma confiança. A experiência desses 20 anos tem sido negativa; desapropriações, fechamentos de empresas, criações de leis que tornam o investimento difícil e mais caro, as decisões mudam no último minuto, entre outras situações.

PR: Segundo estudo do Centro Estratégico Latino-Americano de Geopolítica (CELAG), as sanções impostas pelos Estados Unidos entre 2013 e 2017 causaram uma perda de 350 bilhões de dólares na Venezuela e o fechamento de 3 milhões de empregos. Como está a situação do desemprego no país hoje? O governo fornece alguma ajuda financeira à população? Qual? Como funciona?

Adriana: Nesse caso, não posso falar sobre os números oficiais, porque eles não são publicados desde 2017. Certamente, há um alto índice de desemprego no país devido à recessão econômica. Muitas empresas fecharam ou reduziram sua produção devido aos altos custos, o que tem levado a trabalhar com o mínimo de pessoal necessário. Um grupo de pessoas, especialmente aquelas que trabalhavam no setor público, mudou-se para a economia informal que gera maior renda e outros decidiram migrar para outros países, estima-se que até o momento mais de 6 milhões de pessoas deixaram a Venezuela, buscando melhorar sua qualidade de vida e renda. O governo, através de seu programa de Missões, concede gratificações mensais às pessoas inscritas no Carnet de la Patria, mas o valor atribuído é muito baixo, atualmente não ultrapassa os 3 dólares, o que não é suficiente para atender às necessidades básicas de uma família.

As previsões nada otimistas

Certamente que a pandemia contribuiu severamente para a crise no país sul-americano no qual até o momento, aparece na posição 69 com 4.443 mortos, porém, como expressou a economista Adriana Rojas, a crise já é antiga e o vírus apenas agravou ainda mais. Conforme reportagem da BBC publicada em 2020, a unidade de inteligência econômica do Grupo Economist “previa que o país perderá cerca de 30% do seu PIB em 2020, o que com o que foi perdido desde que Nicolás Maduro chegou ao poder acumularia uma queda de perto de 70%”. Em seu último relatório, o Fundo Monetário Internacional (FMI) previa que a queda será de 25%. A reportagem acrescenta que “Sem cifras oficiais há anos, o Banco Mundial não inclui a Venezuela em sua análise, mas segundo Jackson, da Capital Economics, em um contexto de preços baixos do petróleo, “as coisas só vão piorar em um país que já era uma tragédia antes da pandemia”.

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Cassio Felipe Tartas Rogalski

Sou formado em Letras e Jornalismo com especialização em Relações Internacionais e Diplomacia. Professor, jornalista, autor, colunista e analista de Relações Internacionais. Sou apaixonado por línguas, filosofia, escrita, livros em geral, música, viagens e café.

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